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Mil beijos

Martha Medeiros

Antes todo mundo dava dois beijinhos. Dois, acho, é exagero. Tem gente que capricha três. Em São Paulo é um só. Rapidinho.

Fui convidada para conversar com alunos, como costuma acontecer frequentemente. Cheguei no horário combinado e fui encaminhada à sala de professores, que estava repleta. Quando estanquei junto à porta, alguém me anunciou. Todos então largaram seus afazeres e, gentilmente, vieram em minha direção para me cumprimentar. Pânico. Terror. Iria começar a sessão de bochechas suspensas no ar.

Em tempos não muito remotos, todo mundo dava dois beijinhos. É como eu cumprimento meus amigos: dois e assunto encerrado. Aliás, considero dois até um exagero, porque um só bastaria, como se faz, por exemplo, em São Paulo. Rapidinho. Tempo é dinheiro. Mas aqui convencionou-se dar dois, então tudo bem, smack, smack.

Porém esse comedimento ocorre apenas dentro do meu círculo de amizades. Fora dele, tudo pode acontecer. E acontece.

A primeira professora que se aproximou era adepta dos três beijos, o que até então eu não sabia. Eu ofereci uma, ofereci a outra e ela ainda quis mais uma. Fui pega de surpresa, vacilei, ela ficou um instante com a bochecha esperando meu terceiro beijo, e só então eu dei.

A segunda professora era do time dos três beijos também. Aí foi mais fácil, eu já havia percebido que aquele era o hábito no recinto, então dei logo os três como se tivesse nascido fazendo aquilo.

A terceira professora veio. Tudo indicava que seriam três beijos, mas ela deu dois e retirou a face, e fiquei eu, feito uma boba, com a bochecha suspensa. Ela então emendou o terceiro com uma risadinha, como se estivesse fazendo uma concessão, “ah, tu dá três”. Não, eu não dou três, não tem sentido dar três, é exagerado, antiestético dar três, achei que você preferia três, ora bolas.

Claro que eu não disse nada disso.

Veio um professor, um macho. Oba, recreio para as bochechas, vou apenas apertar a mão. Ele segurou minha mão bem firme e tascou-me três beijos também. Veio a professora seguinte com a mão esticada, me vinguei, segurei-a e tasquei-lhe três, por pouco não tasquei-lhe cinco, e posso jurar que ela não queria nenhum.

Ah, saudosos tempos em que a gente não circulava tanto e era apresentado para poucas pessoas, tudo com certa cerimônia, a intimidade sendo conquistada lentamente, só depois de muita conversa. Hoje você já sai beijando o porteiro, a enfermeira, o vereador, e tem que adivinhar qual o costume da tribo deles – e eles, o costume da nossa – em relação ao número de beijos.

Três pra casar. Que invenção. E lá alguém quer casar hoje em dia?


Domingo, 24 de outubro de 2004.



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